quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

José Abreu e a Importância da Música

José Abreu, fundador do "El Sistema" na Venezuela e vencedor do Prêmio TED em 2009, fala sobre a transformação dos jovens através da música.

"Em sua essência, orquestra e coro são muito mais do que estruturas artísticas. São exemplos e escolas de vida social, porque cantar e tocar juntos significa conviver intimamente, buscando a perfeição e a excelência, seguindo uma disciplina rígida de organização e coordenação para buscar a interdependência harmônica de vozes e instrumentos. É assim que eles criam um espírito de solidariedade, a fraternidade entre eles, que desenvolvem sua auto-confiança e cultivam valores éticos e estéticos relacionados à música em todos os sentidos. Por isso a música é tão importante para o despertar da sensibilidade, para a formação de valores e para o treinamento dos jovens."

"(...) não mais colocando a sociedade a serviço da arte, e muito menos a serviço das elites monopolizadoras, mas sim a arte a serviço da sociedade, a serviço dos mais fracos, a serviço das crianças, a serviço dos doentes, a serviço dos mais vulneráveis e a serviço daqueles que clamam por justiça através do espírito de humanidade e do despertar de sua dignidade.









(fonte da imagem: www.cyprusevents.net)
(vídeo indicado pelo blog Impromptu:www.impromptu.opsblog.org)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Paisagens do Mandrialis


O Vocal Mandrialis comemorou seus 20 anos de atividade apresentando o espetáculo "Paisagens", que estreou no ano de 2009. Tendo passado por Gershwin e Cole Porter, Jovem Guarda e os latinos tangos e boleros, o show atual mescla composições antigas e recentes dos compositores gaúchos Kleiton e Kledir, Mario Barbará, Hermes Aquino, Frank Jorge, Giba Giba, Pery Souza, André Brandalise, entre outros.

A peça "Ave Maria Guarani", de Jorge Praiss, dá um tom solene para abertura e estabelece um contraste com as canções que seguem, de caráter mais popular. O público acompanha então um programa que inclui canções urbanas, quase todas com excelentes arranjos de João Paulo Sefrin, e temáticas mais "gaudérias", tais como "Querência", de Teixeirinha e a tradicional "Roda Carreta", com arranjo de Nestor Wennholtz.

A direção musical do Maestro Sefrin e a ambientação cênica de Claudia de Bem criaram um espetáculo leve, agradável e bonito! O vocal tem uma sonoridade muito equilibrada, um timbre suavemente brilhante e expressivo, resultado do ótimo trabalho da preparadora vocal Clarice Bourscheid. A diferença entre o número de vozes masculinas e femininas é compensada por uma dinâmica bem trabalhada, que também oferece uma interpretação sensível do repertório. A movimentação cênica no palco é natural e despretensiosa, permitindo que todos os cantores sintam-se bem à vontade e se apresentem com desenvoltura, inclusive em intervenções de solo musical.

O grupo conta ainda com a participação dos músicos Luiz Mauro Filho no teclado, Cibele Endres Pereira na flauta doce e Aninha Freire e Diogo Baggio, que se revezam no contrabaixo. O acompanhamento instrumental é charmoso e envolvente e complementa o vocal sem ofuscar. Isto é importante, pois o programa vai se alternando entre canções a cappella e as acompanhadas, mas uma seleção bem planejada, bem como arranjos com uma harmonia sofisticada ou com fortes elementos rítmicos impedem a sensação de esvaziamento que poderia ocorrer com a saída dos instrumentos.

Na apresentação assistida, os músicos Giba Giba e Raul Ellwanger fizeram participação especial, interpretando juntamente com o vocal as canções de sua autoria, "Lugarejo" e "Pequeno Exilado", respectivamente. No ano passado, os músicos convidados foram Frank Jorge, com "Nunca Diga" e Marcelo Delacroix, com sua bela "Chove sobre a cidade", que pode ser conferida em vídeo do Youtube.

Encerrando o espetáculo, "Noite de São João", de Vitor Ramil, com um arranjo de Manoel Figueiredo de Abreu, foge da expectativa do final ritmicamente apoteótico a que estamos acostumados. Ao invés disso, uma harmonia flutuante sustenta os fragmentos melódicos da canção, que tem versos de Fernando Pessoa, e mantém o público suspenso num enlevo doce, meio etéreo, que perdura ainda um tempinho depois de sua conclusão.

Naturalmente, um espetáculo recomendado para suas próximas temporadas!





segunda-feira, 12 de julho de 2010

A Loja de Pianos da Rive Gauche

A Loja de Pianos da Rive Gauche, de T. E. Carhart, é um pequeno relato de um americano que vive em Paris e que, ao passar por uma loja de reparos e venda de pianos, faz amizade com Luc, o restaurador. A partir daí, vê renascer seu amor pela música e pelo piano propriamente dito.

Narrando em forma de romance de memórias, com uma linguagem leve mas envolvente, o autor compartilha momentos pessoais do seu passado e presente, entremeando com passagens informativas sobre pianos de marcas famosas (e outras nem tanto), peculiaridades sobre afinação, construção, restauração e a própria história deste instrumento tão popular, bem como com curiosidades sobre pianistas e seus pianos.

Aos poucos, vamos entrando no universo dos que apreciam e dos que se aventuram a desvendar os segredos do teclado. Acompanhamos as experiências de Carhart que, após adquirir um piano usado, decide voltar a seus estudos. Suas experiências de aprendizado enquanto adulto são mescladas com lembranças de seus estudos na infância.

Leitura agradável certamente para todos, mas imperdível para pianistas, profissionais ou amadores, conhecedores ou não da história do piano.
Abaixo, um trecho do romance:

Passei a ir regularmente ao ateliê e aos poucos fui percebendo que estava dando asas a uma fantasia que tinha desde criança. Os pianos sempre exerceram sobre mim um enorme fascínio. As primeiras recordações que tenho deles são bastante imprecisas, porém, carregadas de emoção, de uma estranha combinação do real - enormes peças do mobiliário diferentes de tudo o mais - com o imaginário. O que fazia com que uma pessoa sentada diante daquele estranho gigante fosse capaz de produzir sons tão bonitos, apenas movendo os dedos para um lado e para o outro? Eram objetos enormes e maravilhosos dos quais saía música por algum processo inescrutável. Dava-me um incrível prazer pressionar aqueles pedacinhos de madeira brancos e pretos ou então dar-lhes socos com os punhos cerrados. Alguma coisa acontecia "lá dentro" e de lá saíam sons estranhos, brilhantes e surpreendentes, às vezes muito intensos. Não conseguia compreender porque os adultos se dariam ao trabalho de inventar uma coisa grande como aquela cuja única função fosse fazer barulho.

(A Loja de Pianos da Rive Gauche/T. E. Carhart; tradução de Maria Alice Máximo. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. p.54)
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